remus

April 30, 2018 § Leave a comment

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porque amamos demasiado o impossível
colocámo-nos céleres na boca do amor,
nus e do avesso para fora da carne
só para beijar na língua o precipício
trilhar o lábio no dente da escuridão
rapidamente desentender essa dor que aguçamos,
descemos mélicos pela escoriação
no fio frágil do sangue

amamos

e porque somos ininterruptos
essa dor masoquista insiste
persiste na aceleração das aves
no prazer delineado pela semente açucarada,
a avidez vertiginosa no bico da quimera

aves pré-históricas, flores carnívoras, feras desenfreadas
somos nós, rápidos

amamos

e porque amamos demasiado a loucura,
de sofrer trajados essa cegueira
guia para as funduras do peito
pelos atalhos das cidades encantadas,
brotamos pássaros azuis dos gestos ávidos
e cardumes fluorescentes da tremura do pânico,
e povoamos o céu com toda a felicidade desse medo

amamos

e assim na fome, pela foz diluída do esquecimento
o coração leitoso atravessa o oceano dentro da espera
sozinho na barca latejante do início
mais tenro que a rendição transparente do corpo
mais doce que a humidade gotejante do amor
mais crente que o amor imagina
que o amor leitoso pelas ondas da invisibilidade

viaja o impossível
ao encontro do amor

no desespero do amor

e imagina tudo possível
enquanto rema

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e se

April 20, 2018 § 3 Comments

weheartit.com

e se as flores forem mesmo assim, floridas
e o azul do céu na transparência, verdadeiro
e o firmamento distante e preenchido, infinito
dentro da essência volátil do amor, inteiro

e se os campos foram mesmo planícies
e os mares profundidade, exercício e espuma
e os peixes, as cores que a minha alma insiste
do teu peito ondulado no meu ser de bruma

e se o tempo for miragem da verdade refletida
e se o espaço for coragem num atalho sem saída
e se eu for mesmo eu, e tu fores tu, na hora louca

e se o ar que respiro, inspirar o ar da tua boca
e se o teu corpo for a minha manta consumida
e se o amor for mesmo assim nesta medida

nuvens

April 11, 2018 § 1 Comment

Garden of the Words_ de Makoto Shinkai

vejo cavalos a galopar no céu
desalmadamente avançam impelidos pelo vento
um é mais cinzento que o outro
um é mais claro e mais lento
outro que se lhes junta é escuro como breu

consigo não perdê-los de vista, se me esforço e tento
se me esqueço do que se intromete neste cavalgar etéreo
se busco mais longe que o olhar e me concentro

são cavalos bravos, depreendo
livres, estou certa que são
fogem assustados do escuro que os persegue
temem perder as formas nas bocas da escuridão
vai na frente um branco solto e leve

ora avançam, ora recuam de repente
depende do jeito que o olhar pressente
se a vontade almeja e a alma pode
se contorno as curvas ao redor
se fixo, se espero simplesmente

o que é escuro como pez, levanta de uma vez as patas no ar, brioso
furioso relincha num silêncio assustador e tenebroso
arrebata os companheiros de cavalgada e desfá-los em espuma
depois, como uma duna ao sopro natural, abandona-se
dilui-se aos poucos, triste como o sal do meu olhar a desistir na trovoada
e chove
chove e retumba fortemente

que pena, penso, tanta vontade transformada em nada
tanta água diluída contra a minha cena denodada
tanta história levada num só momento
tanto tempo disperso de cabeça airada
tanta bravura apartada num esparso movimento

chove
azul a um canto que se move
uma nesga de crina de cavalo branco, ainda varre o céu com desencanto
esboça o infinito para lá dos meus ensaios
do meu cinzel despedaçado pelos cascos
agora, meus cavalos são baios, entre raios de sol, perdidos
no deserto azul do meu embuste, absorvidos, já não os vejo

deslindo apenas coxins de algodão suspensos de um lustre santo
do quadro que fiz e desfiz só resta um pranto

que pena, penso, ter-se varrido tudo
não ter sequer ficado uma almofada de espuma
uma duna onde repousar meu pensamento escuso
com que moldar uma ovelha tresmalhada
talvez um campo florido onde ponha tudo
uma montanha de neve onde impera o frio
um rio azul rodeado de algodão
um rosto, de um corpo a mão
um desejo a rodear o sonho com um fio

Where Am I?

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