nuvens

April 11, 2018 § 1 Comment

Garden of the Words_ de Makoto Shinkai

vejo cavalos a galopar no céu
desalmadamente avançam impelidos pelo vento
um é mais cinzento que o outro
um é mais claro e mais lento
outro que se lhes junta é escuro como breu

consigo não perdê-los de vista, se me esforço e tento
se me esqueço do que se intromete neste cavalgar etéreo
se busco mais longe que o olhar e me concentro

são cavalos bravos, depreendo
livres, estou certa que são
fogem assustados do escuro que os persegue
temem perder as formas nas bocas da escuridão
vai na frente um branco solto e leve

ora avançam, ora recuam de repente
depende do jeito que o olhar pressente
se a vontade almeja e a alma pode
se contorno as curvas ao redor
se fixo, se espero simplesmente

o que é escuro como pez, levanta de uma vez as patas no ar, brioso
furioso relincha num silêncio assustador e tenebroso
arrebata os companheiros de cavalgada e desfá-los em espuma
depois, como uma duna ao sopro natural, abandona-se
dilui-se aos poucos, triste como o sal do meu olhar a desistir na trovoada
e chove
chove e retumba fortemente

que pena, penso, tanta vontade transformada em nada
tanta água diluída contra a minha cena denodada
tanta história levada num só momento
tanto tempo disperso de cabeça airada
tanta bravura apartada num esparso movimento

chove
azul a um canto que se move
uma nesga de crina de cavalo branco, ainda varre o céu com desencanto
esboça o infinito para lá dos meus ensaios
do meu cinzel despedaçado pelos cascos
agora, meus cavalos são baios, entre raios de sol, perdidos
no deserto azul do meu embuste, absorvidos, já não os vejo

deslindo apenas coxins de algodão suspensos de um lustre santo
do quadro que fiz e desfiz só resta um pranto

que pena, penso, ter-se varrido tudo
não ter sequer ficado uma almofada de espuma
uma duna onde repousar meu pensamento escuso
com que moldar uma ovelha tresmalhada
talvez um campo florido onde ponha tudo
uma montanha de neve onde impera o frio
um rio azul rodeado de algodão
um rosto, de um corpo a mão
um desejo a rodear o sonho com um fio

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