trago flores

August 24, 2018 § Leave a comment

abre
sou eu
trago flores

a solidão tem andado a perseguir-me
e os bichos, cá fora
estão cada vez mais ferozes das horas mortas que lhes tem dado a comer

alguns têm asas nas patas e dão dentadas no céu
sobem o ar pela espinha da fé e chove sangue nos rios

outros têm facas nos ossos e lapidam os corpos
até nenhum inteiro sobre a vida de dentro para fora

a solidão sempre à espreita a desmembrar-me pelas esquinas
olha – já me falta uma perna

o dia chegará em que permanecerei queda
esquecerei também o caminho desta porta
uma pedra sobre as coisas

será no fim das estações quando a solidão desligar o sol
e o avesso do dia uma grande escuridão

abre antes que anoiteça
trago flores
o passado não quis vir acho que são amantes ele e a solidão

vi-os de mãos dadas na floresta
vi-os amantizados de ideias a fornicar arrependimentos
e gemiam, oh como gemiam, suavam inteiras florestas tropicais
um masoquismo que alaga, esparge-se
cria tumores que não curam

a solidão apareceu esgadelhada e levou-me esta unha
deste dedo aqui da campainha – olha, incompleto que já não chama
doí-me desde a vontade à ideia que me trouxe
doí-me tudo a partir deste miserável dedo
o corpo a latejar um relógio onde não estás

olha as flores como murcham
uma já perdeu a cabeça de bater neste pulso
que esta gota de sangue a caminho da terra tem o aroma do fim

sei que tens jarras no centro da casa para alegrar os medos
ouço-os rir agora ou será que choram?

nunca sei de que lado ri a dor de que lado mói o prazer
de que lado ama a morte ou morre o amor
de que olhos em que olhos nos reconhecemos

mas vejo a ponta de um jardim a escorregar do teu telhado
como continuas zeloso e doméstico

no entanto esqueceste-te de limpar os vidros
tão foscos que não vejo para dentro para trás desse interior

no entanto sei que estás que dormes, é com a vida?

essa também tem falhado muito dorme demais ou não dorme nada
tem descorado as cores e está tudo pálido e poluído

trago um saco de lixo que pesa muito
dobra-me a fé pelo arco dos ossos
sou uma ponte por onde não passo
vergo-me sob mim

trago um saco de lixo que pesa muito
que vem a transbordar de medos e exterminações

sei que tens um poço aí dentro para acabar com tudo isto
atiro viro costas e fim
acabou é passado e uma escuridão sem fundo

abre que pesa
abre que doí-me o corpo desde a ponta deste dedo
desde a falta da garra para esventrar o mundo

envelhecem-me as raízes sem retorno por isso abre
que aqui deste lado está tudo entornado
e a solidão vive em contínuos desaterros

em pouco tempo veremos o vazio de um lado ao outro do mundo
o olho despejado do amor

abre abre depressa enquanto ainda o vejo
enquanto ainda o amo
tenho medo destes alçapões tão transparentes que a solidão constrói
destrói ao redor da tua casa

como anda com as horas a tecê-los ou com a vida
ou com a morte

trago flores oh como são tão lindas
se demorares morrerão e nenhuma cor
baterei com o rosto na terra e nenhuma dor
romperei os joelhos nos ossos e sangue transparente
de peito na pedra arrastar-me-ei a chamar o mundo e não virá

está por acaso contigo dessa janela a ver-me assim prostrada?

olha olha a minha boca como beija
olha a minha língua como pende a sede
amo-te quero-te antes que me dilua em sangue
um lago vermelho um mar rubro interior um coágulo

doí-me esta facada nas costas este rasgo enorme
que não sara o fundo

sei que tens jeito para curar lugares amaciares insânias

os teus dedos finos e trémulos curativos pela superfície
torcidos pela espinha adentro

abre agora que faz frio
enquanto a solidão anda em fornicações

fornicaremos também
deitamo-nos no quarto do fundo depois da jarra
o mais escuro para que não nos vejam as corolas
discretos nesta relação

cuidarei do jardim e limparei os vidros
para veremos melhor a vida como fode cá fora

assim terás inspiração para matar mais horas
ainda que sucumba tudo

olha a minha boca lê o meu aviso
o meu silêncio nos lábios como fede

a -mo -te

abre
mostra-me o peito

aceita as flores

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nebula

August 22, 2018 § 2 Comments


há um olho no jardim do nevoeiro que vê tudo

vê a linha com que fio o pensamento
vê suas razões costuradas na pedra
desta minha espécie de sono ou caminho
ou sonho intermitente de lã e areia

há esse olho que fia poeiras de um coração dormente
de pequenas pedras com pulsação interior

basta-lhe aceder à cegueira pela porta dos ovos
acender o fundo das cinzas nas franjas do amor
que logo se embriagam as pedras desde as raízes
eclodem veias das fontes de neblina
e eu acedo

e o olho explica-se:
o jardim é invisível e levita
porque é do interior que se harmoniza a luz
germinam e ascendem as flores incandescentes
com suas corolas de indissolúveis cores

e eu acredito
e pestanejo as pedras no jardim do nevoeiro
com um olho cambaleante pela linha cega
pela pulsação ajardinada e líquida do amor

Where Am I?

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