autem

September 30, 2018 § Leave a comment

o hálito bafeja os cabelos – quero-te
e as fontes vertem por sobre a carnação – quero-te

é o fim
é o recomeço

enlaça-te em mim Capricórnio de palmas descerradas
o corpo até ao imo da dúvida – quero-te

quero-te desde as raízes submissas às mãos hábeis
peixes doces ou feras desgovernadas
plumagem ou prumos, dentes ou cordas
portos
soturnidades

vem por dentro de mim Escorpião
destranco os ossos e a pele às sedas
o mapa vertebral aos bichos pulmonares

aproxima-te

chegai-vos ambos por sobre e dentro
antes de atingiram o leito as bestas no berço do retorno
enquanto ainda incautas e crédulas
ébrias à tona do susto para respirar

apanho-lhes a língua e pronto
arranco-a das bocas à superfície do deslumbramento
alimento-me dessa humidade mélica do refúgio

porque são as paredes os braços e os gestos aguados
os rios que seguem o sentido puro da aceleração

assim toma-me e observa-me bem
como te deslizo as mãos pela negritude
escorregas-me e ascendo lívida das pinças aos espelhos

sou o teu firmamento de prata agora – olha-me fixamente
estou a galope do teu joelho montada no pasmo
abro os braços – cavalgo selvaticamente
ininterruptamente sou asas – o meu corpo é vento
transpira-me enquanto ascendo ao vértice lunar

galopo no teu joelho
galopo-te

sou uma égua selvagem e uma égua triste
uma onda tresmalhada no alto mar
uma lágrima de espada contra o golpe

agarra-me pelas guelras ou pelas crinas
desde a crista de espuma não me deixes voar
puxa-me com força da montanha
coloca-me por sobre o teu dorso luzidio

cavalgarei nua de fascínios e ideias – juro
entalada na manada das árvores pela correnteza
pelos cumes a plantar margens na berma dos rios
até à costura do medo e dos teus gestos
porque sou uma jangada e sou um barco à deriva

na pulsação terrífica sou o naufrágio
a velocidade a pique do embate do precipício

apanha-me desse lado do mar da areia perdida
e ancora-me às pedras no pulso da ilha
enquanto é tempo e espaço
tão somente eu e tu pelo descarrilamento do amor

abre o peito Escorpião desde os primeiros orifícios
que deitar-me-ei noturna sobre o abandono
embalada sob a pele de todos os silêncios antigos
coberta das imagens embrionárias

sou uma árvore transparente – olha como caminho
desenha-me os frutos desde a partida para a fome líquida

somos primeiramente os bichos depois as luminescências
temos de acender-nos por dentro desde a nudez das raízes

sou uma égua selvagem e uma égua triste
uma onda no alto mar uma lágrima de espada

agarra-me pelas crinas da crista de espuma
não me permitas naufragar
puxa-me da montanha à superfície da manhã
sem nunca me soltares Capricórnio da noite convulsa

tenho esta carta-constelação que te iliba e salva
com que alumiarei o esquife da despedida
suturarei em pranto condoídas deslocações
de termos partido sem termos chegado ainda
aos verdadeiros símbolos dos inóspitos lugares

que incompreensível que triste meu amor tudo isto
não termos levitado a tempo o mar nos braços
erguido os navios a pique da lua e deixá-los lá

não termos pescado naturalmente a leveza
as estrelas de dentro da simplicidade

o que é isto, o que foi, de que somos feitos agora?

tenho o peso do leito mais fundo sob a asfixia

de que ideia se fazem estas descobertas?
onde pouso as mãos neste interregno da manobra?
para que poente esvoaçam as borboletas?
abro a boca para que atrevimento, que asas ou que cores?
quem desenha o arco da ponte para a travessia?

eu sei eu sei, devemo-nos ao recolhimento

somos demasiado rebuscados para estas simples humanidades

descansemos pois Capricórnio-Escorpião ancorados
por sobre o suor das breves pedras
com os pulsos abertos para o futuro
o sangue a verter desde a fonte interior do tempo

e usemos as línguas contra as escoriações

lambo-me agora – vês?
é o meu peito contra os vendavais

lambemo-nos pois
lambemo-nos intermitentemente neste deserto solar
enquanto o sal derrete a vertigem da paisagem
e as línguas secam sob o mercúrio do sonho

ardo no alto da tamareira do amor sou uma vela nua

a minha chama ascende
a minha cera dilui-se a caminho da terra

olha como os nossos bichos além se misturam soltos
como atravessam transviados uma manada triste

é o vento, é o fogo – não – são eles, somos nós

se pudesse a resiliência da forma – segurá-la,
o meu braço um porto, uma foz, uma derrocada,
um deslizamento, lava, núcleo, astro, fim

dar-lhes-ia uma festa daqui tão longamente
tão docemente um coração para deter o instante
tão longe e tão cruel e tão rápido

se fosse terra serena e tu brisa de seda
deitar-me-ia sob os cascos da fuga
para que me ferissem e parasse

seria então mais simples entender as miragens
crescer das perfurações as flores extintas

assim termino

sem despedidas diluo-me no recolhimento
e desisto-me plácida e suavemente por sobre a memória

beijo-te daqui para sempre Muriel – quero-te
abro-te a minha boca – olha – quero-te
é um sol ou um lago ou ar apenas – quero-te
impercetível luminosidade – quero-te

beija-me tu daí Capricórnio do espiráculo do amor – quero-te

que talvez tenha sido em nós a plenitude – quero-te
e a culpa do deserto este inesperado oásis – quero-te

do Escorpião – quero-te

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September 21, 2018 § Leave a comment

afinal era amor, vinha atrasado
nas asas fragmentadas do panapaná

agora já está deitado, calado e triste
acordá-lo é talvez rasgar a floresta
tão somente para o deixar fugir
não mais voltar

montis

September 13, 2018 § Leave a comment

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a pedra batia o sino no alto da luz da cabeça da mulher
no tempo em que ela embalava as palavras
cobria-se com a humidade da tarde antes da noite fluorescente
com as mãos cruzadas no peito como árvores antigas
ou lagos adormecidos ou elfos ou faunos ou fadas
com o rosto voltado para o interior da magia das flores musicais
que ele semeava longe, longamente, docemente para ela
pelas margens descerradas da paciência

e a pedra que batia tão alto e tão forte no cume da escuridão
era cada vez mais elevada e inaudível
e o bulício feria e rasgava a noite completa
sangrava constelações pelas horas místicas da espera

e a pedra acontecia desde o homem da montanha
à mulher que corria livre no sentido do rasgo inexplicável
para dentro do futuro ao mesmo tempo que resvalava na luz
torcia os pés nas margens dos poços intermitentes

oh! cairei cairemos – gritava de dentro do eco da cabeça
com a língua gretada no sentido das estações
estendida para a insustentável sede vespertina

oh! essa dor esta dor na saliva do distanciamento
e lambia e lambia as feridas pelas horas da convalescença
para amolecer a carne e humedecer a fome na aceleração

poderei cair cairemos – sabia e dizia certas vezes sorridente
com os braços descerrados em asas ou em peixes ou em línguas
ou em vento pelo dorso luzidio de um potro tresmalhado
ao mesmo tempo que tentava agarrá-lo pelos flancos
puxá-lo para si deitar-se nele ou com ele nos descampados
onde suaria e inspiraria e rasparia os próprios cascos
nos lábios suturados e fragmentados da terra alienígena

poderemos quem sabe quem diz pertencer ao mesmo coração das pedras
bater com elas assim duras dentro da gente desemparedada
abrir estas fontes evaporadas de espuma sobrenatural

e enquanto pensava ou dizia ou fazia tudo isto, temia
e gritava tão terrificamente que brotavam fontes na montanha
do homem entre as pedras fluorescentes a plantar corações
que ficavam a brilhar com as estrelas até não existir mais espaço
entre elas os dias e as palavras no pensamento e no amor
como beijos geminados ou desfalecimentos da quimera

e crescia e crescia tudo abrindo e fechando tudo
abrindo-se e fechando-se como um pulmão magoado
um coração estelar abrindo e fechando as válvulas feridas da noite
com os olhos enfraquecidos das horas solares
estalando tudo nos ossos vibratórios da transpiração do amor

e a pedra batia tão forte tão fortemente e tão dura
que por vezes era tão mole e tão líquida que sangrava areia do peito
na resiliência do amor que nela corria e em torno de si mesma
a rodar a rodar os desertos nos espelhos das miragens

a pedra que trespassava o tempo para ecoar nas paragens distantes
dentro de todos os relógios para cobrir todos os desacertos
das caçadas violentas de encontro à felicidade impossível

vamos cair cairemos falava ela ou cantava ou chorava tanto faz
que é tudo a mesma coisa nesta vida o resto inventamos nós
– enquanto acelerava abria a boca no arco duma clave
para que ele acertasse o compasso da pauta nua do encantamento
entrasse despido pela aragem sincera da respiração
pelos trilhos acidentados do deslumbramento

que a pedra batia batia-lhes tão alto e tão forte nos sentimentos
dele tão longe que o medo um lanho uma porta entreaberta
dele tão perto e dentro de todas as pedras da casa incendiada
dela quase tão antiga quanto uma ruína desde as raízes
uma nuvem ou um lago que levita no vapor que embebe os telhados
pelo ciclo da água transcendental da espécie

tudo isto dele para que ela entrasse desde o dia acidental
por debaixo do ruído da cidade nua e escalasse as paredes
a mulher que procurava e se despia para entender-se
desde os pés do pensamento ao batente do coração

a mulher e o homem e a pedra
uma montanha altíssima que escalavam juntos
tão elevados tão profundamente até ao infinito
para esculpir em uníssono
todas as formas graníticas do genuíno amor

Where Am I?

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