rete

October 29, 2018 § Leave a comment

vejo algumas vezes o amor no lago abstraído dos teus olhos

se mergulho peixes daqui para aí
se vão ao fundo e voltam
não me dizem

fica no segredo do amor

também
como nadaria eu os teus peixes dentro dos meus lagos tristes
caso os houvesse?

que lhes daria de comer à superfície turva da minha fome?

penso nisto e nos cardumes possíveis e quase cego

não fossem as tuas pálpebras fecharem-se logo
não restariam peixes
ou outra qualquer humidade para a cenestesia líquida do amor

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baixa-mar

October 23, 2018 § Leave a comment

o tempo que leva a baixa-mar
é o mesmo da humidade dos teus olhos

assim, mal chego
despeço-me de ti e dos bichos

dormem agora o fundo complexo das horas e das palavras
e resguardam o amor submerso

tenho a impaciência das marés no cálculo impreciso dos baixios
e desconfio-me às vezes presa na rebentação,
outras vezes rebentação apenas

angustio, mas despreocupo-me logo
pois nada é previsível e seguro dentro e fora do mar e do amor
como o reflexo dos olhos e a liquidez das palavras

como tal
provavelmente, quando o mar me descobre calo-me
e tu, fechas-me nua dentro da humidade dos teus olhos
onde sobrevivo na profundidade,
onde ovulo versos por construir

e faço coisas inimagináveis onde nascem e desovam as espécies
que nem eu sei, apenas tu o mar e o amor
quando desço até ti a superfície vertiginosa
no mesmo instante em que te cumprimento e aos bichos
e me despeço

ms III

October 19, 2018 § Leave a comment

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do amor

assim, viaja de umas para as outras
dilata-se nas veias, irrompe da carne
verte pulsar sobre as coisas

e destas por sobre a pele até ao imo dos ossos
como as cinzas e o soro da reconstrução

as meninas sangrentas emergem da correnteza
saltam diretamente da medula dos ossos para as janelas descerradas da casa
íntimas, molhadas, voltadas para o universo nu
do fluxo para o aquário do mundo

– é uma lua vermelha – dizem, apontam o céu de dento da contemplação

o sangue das meninas sangrentas é a matéria da contemplação

– é um boca redonda por sobre o mundo, um conceito antes do nome
– não é
– o nome é uma invenção e a lua é uma língua enrolada
desentendem-se enquanto juntas e acocoradas observam os astros
discutem o mar, a terra, as constelações e outras coisas aparentemente menores

ou entendem-se
e juntas atiram velharias contra o mundo como casas abandonadas
relógios desregulados, bonecas decapitadas, corações vendados
signos avariados, viagens acidentais
cartas incendiadas e/ou certos poemas desmembrados

– não é uma invenção. é um coágulo em chamas que dói
como as palavras mudas que ardem permanentemente dentro de nós

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do amor

– é uma dor em achas como um deus ultracongelado
– um peixe?
– não. um bode num lugar muito antigo e frio

e concordam que deus bale muito e que arde como o fogo e o gelo
e os cornos
como a dor da carne em florestas longínquas
até ser atirado fora com as velharias

pensam nisto com as mãos espremidas dentro do avesso da carne
à procura de plenitude por dentro e por fora do sangue
de dentro e de fora da dor e da desarrumação,
com os peitos descolados e quentes estendidos sobre o peitoril,
um mapa que distendem para procurar caminhos nas veias que escapam, confundem-se, apodrecem
formam vermes que gotejam sobre os pés num abandono em ruínas

– é aqui o céu. está aqui neste lugar. aqui
e olham todas no sentido interior, depois para cima
e depois fixamente nos olhos e na desconfiança

e odeiam-se e amam-se e acariciam-se e ferem-se
da boca ao ânus e do ânus à língua velozes e ágeis
cada vez mais rápidas da boca ao ânus e do ânus à língua
cada vez mais exaustas
e vazias
desgastadas de perplexidades

– não é uma lua. é o amor que arde como um sol
– como as palavras e os gestos rebentados que nunca deveriam ter acontecido
– como aquela constelação de ser tão clara e pura

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do espaço
– é um bode que ascende o circulo dos cornos depois desce no sentido da terra
– tem um rabo de peixe. deveria de nadar com a luz no sentido do infinito
– as escamas são as estrelas da fuga

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do medo na reedificação do deus
– é um lago escuro onde o amor é irrespirável e desconhecido.

e sacodem as mãos frenéticas para soltar os peixes, as dúvidas, os caminhos
os sentimentos difusos de dentro do pensamento sem quebrá-lo
com os dedos em chamas por sobre a pele, por dentro da noite estilhaçada
mastigando os gemidos por entre as coisas ainda vivas
como as felicidades, os sonhos, a saudade e as doces palpitações

– é o petróleo que arde as palavras que se transformam em árvores transparentes
– como os brinquedos das inconsciências, evaporados
que ascendem e mergulham na lua
– e que fervem no seu interior e que desabarão sobre o mundo

o sangue das meninas sangrentas ferve o caos
dentro da obstipação e dos gestos desregulados como uma lua vermelha

– é um coágulo. é um coágulo. transpira. não olhem que vai rebentar
– é o céu que abre o cu
– viu-nos e cairá sobre nós como as palavras mortas e os deuses falsos
– fechem a janela ao cu celeste depressa
e tapam os ouvidos umas às outras com escuridões cantilenas e gritos

trá-lá-lá, trá-lá-lá, trá-lá-lá, trá-lá-lá, lá, lá, lá, là …

até à contração de todos os espiráculos naturais, de tudo o que pensam
temem e experimentam, que existe de mais cruel, porco e obsceno
até ao derrame do encantamento sobre o esquecimento
com que se erguem as paredes mais fortes e os muros mais espessos
como o passado enfadonho e as ruínas para o futuro mais triste

– vamos comer rebuçados, beber água e fazer chichi
e retiram-se molhadas e quentes para o interior doce e amarelo das coxas

vão baloiçar-se, urinar e pentear-se longamente e à tristeza
com o açúcar que lhes resta,
umas às outras as cabeças doloridas de tentarem tudo
com os olhos dilatados de tentarem a lua de sangue depois fugirem dela

e enquanto chupam e urinam na noite
babam-se e choram os rebentamentos
beijam-se e acariciam-se com os medos

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do esquecimento
de terem acreditado que as coisas que amavam eram para sempre
que era possível reter o amor

– o amor era um rio amarelo e quente que fervia
– era um sol antes de nascer o dia, o amor
– era o petróleo das palavras que ardiam o sentido, o amor

e batem com as mãos sobre as bocas para não dizer mais infelicidades
e batem com os pulsos abertos a arder por sobre o petróleo do peito
para não sentir mais nada
e enterram os dedos duros dentro das vaginas para não deixar escapar as flores
– deixem lá. deixem sair que é um jardim. abram
e distendem os vales por sobre a planície do recolhimento expulsando das entranhas todas as paisagens interiores

– é chichi.
– não é. estamos dentro do sangue. são flores
– e deus é um espiráculo. as bonecas fugiram. ascendem carregadas. cavalgam decapitadas o dorso do signo
– olhem olhem. retornam à pureza da constelação. entrarão na lua com as quinquilharias e os cestos transbordados de flores

– deus vai apanhá-las. vai caçá-las e desfaze-las em pó
e fecham os olhos para não ver as bonecas de encontro ao abismo
nuas, carregadas e cegas, cobertas de flores

– é sangue. a matéria inexplicável do amor – pensam
enquanto o deus sorve, rumina, bafeja, seca, esfarela a carne e os objetos desperdiçados entre as pétalas rubras das flores que deram à margem com as cabeças cegas, escaparam infecundas ao interior espremido das coxas

– é sangue. a matéria inexplicável do amor
enquanto deus arfa, transpira, esfrega tudo com a fricção da loucura
com a excitação e o êxtase supremo da criação

– deus é orgásmico. deus é um sádico que vir-se-á terrífico sobre nós, sobre o mundo
– como as palavras? como o leite? como o fogo?
– como o sangue interior que não cumpriu o seu curso
– como as palavras que não aconteceram, as brancas que ditam o fim
e erguem-se nuas sobre a corrente

– é o fim
– é o início
o sangue das meninas sangrentas é matéria prima indistinta de deus e do amor

a descerram as pernas para absorver a noite, o deus, o leite, o jardim imaginário

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima da reconstrução
trá-lá-lá, trá-lá-lá, trá-lá-lá, lá, lá, lá, lá …

ut

October 13, 2018 § Leave a comment

ai de mim
se adivinhasse o sangue dessas flores
até onde perfuram os ganchos as borboletas
até onde atravessam as asas a ferrugem dos ossos
as canoas entre as empenas do meu sangue
até onde rasgo a carne entre a farpa das unhas
até onde os meus chicotes na órbita dos medos
até onde tudo perdido por uma nesga de perfeição

até onde me levam estas velas loucas? os mastros?
até quando demora na pele este vento? o cabelo?

se soubesse a música longínqua desse espaço ínfimo
a forma geométrica velocíssima desse tempo
talvez adormecesse de vez o meu peito na folha
a boca apertada num ramo inteiro de uma árvore
e lambesse longamente essa casca até ao infinito
molhada de açúcar e fruta explodida de espelhos
a lágrima da viagem no crescente prateado da retina
e o céu todo um suco vertido no espasmo da língua
e o mar hibernado um lençol de muco e redes
e saísse por aí a chover o meu telhado num dilúvio de penas
um bando de casas nas asas breves dos passarinhos
apenas para esculpir jardins na sebe das paredes
e adormecer amorosa os meus ovos no arco desses ninhos

ita

October 10, 2018 § Leave a comment

porque existem aves existem olhos
pés porque existem caminhos
só tem de existir o vento
porque sem respirar não vou
não choro não preencho o corpo
as pedras na dor do espaço

porque existem árvores e sangro
porque existe céu e tropeço
de tudo tão curvo e tão baço
de tudo estar sempre a morrer
tudo o que está sempre a chegar
que apenas quando alguém me pensa
no instante em que alguém me quer
pertenço a algum lugar

Where Am I?

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