ut

October 13, 2018 § Leave a comment

ai de mim
se adivinhasse o sangue dessas flores
até onde perfuram os ganchos as borboletas
até onde atravessam as asas a ferrugem dos ossos
as canoas entre as empenas do meu sangue
até onde rasgo a carne entre a farpa das unhas
até onde os meus chicotes na órbita dos medos
até onde tudo perdido por uma nesga de perfeição

até onde me levam estas velas loucas? os mastros?
até quando demora na pele este vento? o cabelo?

se soubesse a música longínqua desse espaço ínfimo
a forma geométrica velocíssima desse tempo
talvez adormecesse de vez o meu peito na folha
a boca apertada num ramo inteiro de uma árvore
e lambesse longamente essa casca até ao infinito
molhada de açúcar e fruta explodida de espelhos
a lágrima da viagem no crescente prateado da retina
e o céu todo um suco vertido no espasmo da língua
e o mar hibernado um lençol de muco e redes
e saísse por aí a chover o meu telhado num dilúvio de penas
um bando de casas nas asas breves dos passarinhos
apenas para esculpir jardins na sebe das paredes
e adormecer amorosa os meus ovos no arco desses ninhos

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