ms III

October 19, 2018 § Leave a comment

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do amor

assim, viaja de umas para as outras
dilata-se nas veias, irrompe da carne
verte pulsar sobre as coisas

e destas por sobre a pele até ao imo dos ossos
como as cinzas e o soro da reconstrução

as meninas sangrentas emergem da correnteza
saltam diretamente da medula dos ossos para as janelas descerradas da casa
íntimas, molhadas, voltadas para o universo nu
do fluxo para o aquário do mundo

– é uma lua vermelha – dizem, apontam o céu de dento da contemplação

o sangue das meninas sangrentas é a matéria da contemplação

– é um boca redonda por sobre o mundo, um conceito antes do nome
– não é
– o nome é uma invenção e a lua é uma língua enrolada
desentendem-se enquanto juntas e acocoradas observam os astros
discutem o mar, a terra, as constelações e outras coisas aparentemente menores

ou entendem-se
e juntas atiram velharias contra o mundo como casas abandonadas
relógios desregulados, bonecas decapitadas, corações vendados
signos avariados, viagens acidentais
cartas incendiadas e/ou certos poemas desmembrados

– não é uma invenção. é um coágulo em chamas que dói
como as palavras mudas que ardem permanentemente dentro de nós

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do amor

– é uma dor em achas como um deus ultracongelado
– um peixe?
– não. um bode num lugar muito antigo e frio

e concordam que deus bale muito e que arde como o fogo e o gelo
e os cornos
como a dor da carne em florestas longínquas
até ser atirado fora com as velharias

pensam nisto com as mãos espremidas dentro do avesso da carne
à procura de plenitude por dentro e por fora do sangue
de dentro e de fora da dor e da desarrumação,
com os peitos descolados e quentes estendidos sobre o peitoril,
um mapa que distendem para procurar caminhos nas veias que escapam, confundem-se, apodrecem
formam vermes que gotejam sobre os pés num abandono em ruínas

– é aqui o céu. está aqui neste lugar. aqui
e olham todas no sentido interior, depois para cima
e depois fixamente nos olhos e na desconfiança

e odeiam-se e amam-se e acariciam-se e ferem-se
da boca ao ânus e do ânus à língua velozes e ágeis
cada vez mais rápidas da boca ao ânus e do ânus à língua
cada vez mais exaustas
e vazias
desgastadas de perplexidades

– não é uma lua. é o amor que arde como um sol
– como as palavras e os gestos rebentados que nunca deveriam ter acontecido
– como aquela constelação de ser tão clara e pura

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do espaço
– é um bode que ascende o circulo dos cornos depois desce no sentido da terra
– tem um rabo de peixe. deveria de nadar com a luz no sentido do infinito
– as escamas são as estrelas da fuga

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do medo na reedificação do deus
– é um lago escuro onde o amor é irrespirável e desconhecido.

e sacodem as mãos frenéticas para soltar os peixes, as dúvidas, os caminhos
os sentimentos difusos de dentro do pensamento sem quebrá-lo
com os dedos em chamas por sobre a pele, por dentro da noite estilhaçada
mastigando os gemidos por entre as coisas ainda vivas
como as felicidades, os sonhos, a saudade e as doces palpitações

– é o petróleo que arde as palavras que se transformam em árvores transparentes
– como os brinquedos das inconsciências, evaporados
que ascendem e mergulham na lua
– e que fervem no seu interior e que desabarão sobre o mundo

o sangue das meninas sangrentas ferve o caos
dentro da obstipação e dos gestos desregulados como uma lua vermelha

– é um coágulo. é um coágulo. transpira. não olhem que vai rebentar
– é o céu que abre o cu
– viu-nos e cairá sobre nós como as palavras mortas e os deuses falsos
– fechem a janela ao cu celeste depressa
e tapam os ouvidos umas às outras com escuridões cantilenas e gritos

trá-lá-lá, trá-lá-lá, trá-lá-lá, trá-lá-lá, lá, lá, lá, là …

até à contração de todos os espiráculos naturais, de tudo o que pensam
temem e experimentam, que existe de mais cruel, porco e obsceno
até ao derrame do encantamento sobre o esquecimento
com que se erguem as paredes mais fortes e os muros mais espessos
como o passado enfadonho e as ruínas para o futuro mais triste

– vamos comer rebuçados, beber água e fazer chichi
e retiram-se molhadas e quentes para o interior doce e amarelo das coxas

vão baloiçar-se, urinar e pentear-se longamente e à tristeza
com o açúcar que lhes resta,
umas às outras as cabeças doloridas de tentarem tudo
com os olhos dilatados de tentarem a lua de sangue depois fugirem dela

e enquanto chupam e urinam na noite
babam-se e choram os rebentamentos
beijam-se e acariciam-se com os medos

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima do esquecimento
de terem acreditado que as coisas que amavam eram para sempre
que era possível reter o amor

– o amor era um rio amarelo e quente que fervia
– era um sol antes de nascer o dia, o amor
– era o petróleo das palavras que ardiam o sentido, o amor

e batem com as mãos sobre as bocas para não dizer mais infelicidades
e batem com os pulsos abertos a arder por sobre o petróleo do peito
para não sentir mais nada
e enterram os dedos duros dentro das vaginas para não deixar escapar as flores
– deixem lá. deixem sair que é um jardim. abram
e distendem os vales por sobre a planície do recolhimento expulsando das entranhas todas as paisagens interiores

– é chichi.
– não é. estamos dentro do sangue. são flores
– e deus é um espiráculo. as bonecas fugiram. ascendem carregadas. cavalgam decapitadas o dorso do signo
– olhem olhem. retornam à pureza da constelação. entrarão na lua com as quinquilharias e os cestos transbordados de flores

– deus vai apanhá-las. vai caçá-las e desfaze-las em pó
e fecham os olhos para não ver as bonecas de encontro ao abismo
nuas, carregadas e cegas, cobertas de flores

– é sangue. a matéria inexplicável do amor – pensam
enquanto o deus sorve, rumina, bafeja, seca, esfarela a carne e os objetos desperdiçados entre as pétalas rubras das flores que deram à margem com as cabeças cegas, escaparam infecundas ao interior espremido das coxas

– é sangue. a matéria inexplicável do amor
enquanto deus arfa, transpira, esfrega tudo com a fricção da loucura
com a excitação e o êxtase supremo da criação

– deus é orgásmico. deus é um sádico que vir-se-á terrífico sobre nós, sobre o mundo
– como as palavras? como o leite? como o fogo?
– como o sangue interior que não cumpriu o seu curso
– como as palavras que não aconteceram, as brancas que ditam o fim
e erguem-se nuas sobre a corrente

– é o fim
– é o início
o sangue das meninas sangrentas é matéria prima indistinta de deus e do amor

a descerram as pernas para absorver a noite, o deus, o leite, o jardim imaginário

o sangue das meninas sangrentas é matéria prima da reconstrução
trá-lá-lá, trá-lá-lá, trá-lá-lá, lá, lá, lá, lá …

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