feng shui bovidae

November 20, 2018 § Leave a comment

sem horas para voltar
as vacas viajam pela noite fluorescente

da montanha, em direção ao mar
deslocam-se velocíssimas, plácidas
tão transcendentes e crédulas
com os dentes rilhados na metafísica do amor

porque as vacas, quando ascendem amorosamente ao dorso do dragão
atravessam com ele, e nele a pele
o coração descerrado do feng shui
que as transporta nas longíssimas viagens que fazem

porque as vacas místicas fazem longas distâncias
amando profundamente os trilhos
e todos os espaços abertos e fundamentais

como tal
enquanto o fazem, assim, magníficas
suspensas na insanidade que se distende
sonham vagamente que são felizes
desde o sangue à terra espiritual

planando altíssimo a imensidão instintiva
no sentido enigmático do fascínio e da carne
enquanto ruminam suspensas a vida
agarradas ao açúcar

porque as vacas espirituais são doces

tão doces quanto violentas e amargas
como todas as coisas belas
e inexplicavelmente puras

como o dragão que idolatram
trespassa-as e incendeia-as na noite
com seu inflamável fôlego

com ele rompem o ar desde o cume mais alto
ao colo do medo impulsionador
e projetam-se absortas contra o início
contra todas as torres subitamente erguidas e esventradas
com o seu cio muito puro e vertiginoso
inaugurando os corpos
ferindo a pele nas arestas do betão antigo
sangrando súbitas janelas na pulsação

e mugem
mugem altíssimo

sempre que o dragão ruge
elas mugem e abrem-se

e ele atravessa o espaço

corta-as ao meio da luz
e elas sangram
no alto espiráculo dos grandes arranha-céus
antes da fome as impelir sobre o abismo no sentido do mar
no sentido do amor, do medo, e da transgressão
que tremem desde o cerne animalesco
do vento e da água hiperfísica
contra todas as perplexidades

ele ruge

elas mugem

e o dragão inclina-se sobre elas
que abrem as bocas e sorvem o hálito penetrante
com o cio ultranatural das fêmeas contagiadas
descerrando pacientemente as pernas sob o dorso
inclinadas para trás
atirando o peito de encontro às constelações
inebriadas no álcool cristalino da alucinação

metafisicamente felizes desde as funduras do amor
com o arco das vértebras em chamas
sob o tórax escaldante do bicho
enquanto sorvem arqueadas o sal
a espuma incandescente
o suco imaturo dos grandes campos alagados e antigos

ruminam e exorcizam delicadamente os peixes
para perpetuar a correnteza da espécie
uma montanha inteira e sôfrega
enrolada no arco da língua
suspensa nas órbitas geminadas
para que não se esgote nunca o suco transcendente
da incompreensível humidade da terra e do amor

pensam tudo isto
e desfalecem os flancos de encontro ao sangue do poente
prostradas
e com o sonho nas mãos da noite a latejar
bebendo todas as horas num só trago de felicidade

com tempo
e sem tempo para voltar

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