receptum

January 23, 2019 § Leave a comment

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agora meu amor
é simples

é olhar em frente para andar para trás

e quer isto dizer
trazer o mar à fonte impossível pela borda do peito
mergulhar os olhos para lavar as mãos
correr para esconder o corpo

porque agora
meu amor
em que me vês
não sabes que ainda sou invisível

e que o silêncio é uma espécie de recuo
para encontrar-te

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solitudinem

January 21, 2019 § 2 Comments


se escolho um instante para ser

é agora

carnação enriçada e húmida
para um gato solarengo de olhar perdido

uma mão quente e pesada sobre a pelagem
uma língua áspera e lenta dentro de mim

um janelo solar sem aldraba ou vidro

de bicho acercar-me e verter-me assim

e esse gesto infinito, reiterado, inaudível, puro
resvalar transpirado a carne sob a pele

minha exaltação reconhecível, singular

a desumanização da consciência
a deslocação da forma e dos nomes

presenciar apenas o estado espontâneo
sem legado a desvendar-me, primitivo

ser um gato infinito sobre uma pedra

isso – preto, pesado, só, despido -, e aí
reconhecer-me no esquecimento

no regozijo que medra inconsciente
a proximidade da dimensão pura do gato

de existir apenas nessa condição

na intuição de ser involuntária e nua

noctem

January 17, 2019 § 2 Comments

era noite

o coração das meninas sangrentas subia e descia a roupa nos espelhos
como gatos vermelhos, pintados de azul
pintados de amor, desfolhados de vidros e flores

era noite
e as magnólias abriam bocas pelas frestas carne
que abriam e fechavam olhos nos olhos
nos lagos da noite, como lábios feridos
como pernas descontroladas no vento

lábios que pendiam e lambiam a água na água do vento para matar a sede
pernas que corriam e procuravam caminhos e se perdiam
portas por onde entravam e saiam corações húmidos, ou gatos exaltados que afligiam
ou membros desconjugados que suavam
ou sonhos submersos que emergiam, que subiam
que desciam torres que pousavam

era noite

e o coração das meninas sangrentas batia a pique nas constelações
rodava maçanetas dentro e fora da bruma para deixar entrar a luz aquática do mundo
abrir o espaço ao espaço descerrado do amor

era noite

e os gatos subiam e desciam irrequietos o suor, o cuspo, os braços
o êxtase por dentro e nas pausas da apneia transpirada do amor
das mãos nas mãos doces, perfumadas do amor

era noite e era o amor

e as magnólias cintilantes nas mãos, nas janelas
levitavam na bruma a alumiar uma dor antiga
que o tempo de portas e de gatos e de bocas e de humidades esbateu

era noite

e o coração delas batia de encontro às paredes
às esquinas para acalmar a urgência

rasgava-lhes o peito pelo rasgo do medo para deixar entrar o amor
ou deixar sair o amor para respirar lá fora uma árvore ou uma flor de sangue
por onde os corações e os gatos fugiam e regressavam do tempo por dentro e fora da bruma

era noite e o coração das meninas sangrentas pulsava as magnólias
que o amor regava desde os olhos dos lagos geminados,
até às árvores magníficas das raízes mais profundas

magnólias húmidas que se dilatavam, distendiam, subiam e tocavam

e os bichos, apenas vultos de luz
ou de flores luminosas sem tontas inquietações

era noite

noite pura

e os corações dilatavam-se na bruma, beijavam-se longamente
latejavam as cabeças dos gatos velocíssimas
até libertarem dos peitos vagidos por entre as poeiras mais secas das esquinas mais cortantes

as meninas respiravam na noite
enquanto os gatos arqueados subiam e desciam, amassavam, sentavam-se sobre os peitos, estendiam-se, espreitavam pelos umbigos para ver de onde a aflição do amor nascia
mergulhavam as cabeças dentro da carne aberta, para acalmarem os martelos das flores
das mãos polarizadas no êxtase

era noite escuríssima

e barrigas pulsavam, tocavam-se, subiam e desciam brancas como a lua
levitavam o instinto até às constelações,
mergulhavam até aos abismos mais inexplicáveis da frágil humanidade

era noite e as meninas procuravam dentro do sonho a boca do amor

com as mãos, com as línguas, remexiam a humidade mais levitada das margens
enquanto os gatos espetavam as unhas na entrada do nascimento à espera das sementes

era noite
e a boca do amor andava por dentro das veias, desde a cabeça até aos pés a latejar
a beijar as paredes mais íntimas, as superfícies mais leitosas, rendilhadas e interiores da pele

e a boca sempre que beijava dilatava-se dentro delas que empinavam os ventres
arqueavam as costas
faziam uma ponte por onde o amor atravessava quente as vértebras
a carne incendiada no sentido livre do espírito

é noite e não conseguimos dormir – diziam -, não conseguimos, não conseguiremos
porque as unhas dos gatos, às vezes
apanham os cabelos sedosos do amor que vem à tona do sangue para respirar

podem matá-lo só de vê-lo, tocar-lhe,
mesmo que no sentido único e puro do amor

era noite, uma puríssima e inexplicável
espelhada noite de magnólias fluorescentes na torre envidraçada do amor

as meninas pulsavam, distendiam e fletiam os joelhos até os ossos atingirem a luz
ferirem os olhos aguado do amor, quando este fixava os olhos dilatados do coração
que subia e descia cadeiras e mesas de animais puros
arqueados
sobre a ansiedade de beijar a boca velocíssima do amor
bater nas esquinas as descobertas com chicotes de ossos e sangue

se o sonho transbordasse subitamente a pulsação, jorrasse pelo umbigo – pensavam -,
um grande lago de sangue verteria da vontade
e os corações sem unhas passariam a nado sob o arco do corpo em direção à luz

e tapavam os olhos com as mãos abertas

e o amor escutava-as a abrir e a fechar suas válvulas de aguadas bocas

soltava sementes rosadas, desejos saciados do chão ao mais longínquo espaço

e as magnólias nas árvores despidas dos jardins abriam gestos perfeitos
de perfumadas florações de encontro à felicidade

era noite
e as primeiras magnólias abriam e fechavam a boca de encontro a todas as janelas temerosas
como anémonas flutuantes no aquário do mundo

era noite
e as meninas sangrentas transpiravam rios que com as mãos puxavam até ao pescoço para se cobrirem,
afogarem o tempo do amor que as beijava dos pés à cabeça
com os corações nos gatos a latejar, a subir e a descer as paredes de magnólias brancas, crescidas de luares
e arvores a esbracejar a velocidade do amor e das sementes a espreitar de todos os poros

era noite era noite
e a noite transpirava uma bruma sobrenatural para amaciar a sede

era noite e bebiam da fonte acabada de jorrar

era noite era noite
e não beberam tudo
dos gatos dependurados nas magnólias, nas janelas, à porta dos umbigos
ou a espiar pelo arco das vértebras
pelo almofadado das bocas
pelo emaranhado das veias
a subir e a descer no sentido do caminho da berma verdejante do amor

era noite e nunca mais escurecia para deixar adormecer as magnólias
o amor no lago de sangue a tanger-lhes as bocas
entrar-lhes pelas vaginas
pousar-lhes no peito infinitas festas amorosas

noite de magnólias
noite de magnólias doces

gatos que espiavam luas húmidas
mãos tão entorpecidas na vontade
que pousavam gestos à janela espelhada da mais bela e inexplicável escuridão

apneia

January 10, 2019 § Leave a comment


meu amor
quero saber
quando correremos com o vento nas mãos para apanhar os pássaros?

vejo além um
depois daquela altíssima torre
a resvalar a tua mão aberta sobre a minha barriga

olha
como bate as asas velocíssimo que parece parado
com um coração quente no bico para meter à boca
e um relógio no peito para segurar as horas

vá lá
meu amor

é verão

solta-te dessa parede sobre o meu corpo
alcança-lhe o voo
detém a estação

o teu gesto a pique do meu ventre para apanhar os rios
trazê-los de fontes à superfície húmida dos teus gestos
descerrar os caminhos ocultos desta cidade
erguer uma altíssima árvore para regar as palavras
e esculpir um ninho

encosto-me às paredes para escutar a metrópole
chamar a ave

perguntar-te

achas que entende a velocidade deste meu mapa?

luxação

January 2, 2019 § 2 Comments

Desenho de Egon Schiele

Parto do amor mas regresso sempre
Demitida o sopro, o suor, a mágoa,
As pernas nuas pelo vestido
Como se na corrida me chovesse
E o vento nos joelhos me entornasse,
Despida fosse a cor da minha roupa
A roupa fosse a dor de estar vestida
E o sangue pela carne transbordasse
A velocidade louca de ser água
Na fonte do ardor, endoidecida

Where Am I?

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