iter I

February 9, 2019 § 1 Comment

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eis a beleza abrupta do início
pequeno barco na rota dos pés

dá-me a tua mão verde para o aplauso
para navegar o começo
que é do princípio que me dispo
que é da partida que te colho
qualquer palavra muda na faina

eis que partimos, musicais pedras,
espécies intraduzíveis, corais
ao fundo dos peixes das flores

eis muitas ilhas à esquina do amor

escarpado fim

dá-me a tua mão azul magnífica
e não te apresses solar, náufrago
na jangada de luz
na violência feliz de aportar

guardo comigo a obstinação solene de uma árvore
o mastro atravessado no peito da planície
e a quilha ao leme da respirável terra

assim, espero-te
rasgada pela costura do mar,
boca desfraldada, o teu dedo a prumo da paisagem
martelo húmido à vela no cabelo

eis que somos deuses e inauguramos juntos esta miragem

eis o navio à proa do sortilégio das marés

deixa-te inábil, sobreposto
na barcola da pele em que me largo

e que te prenda apenas o vento vertical
a veia na inquietação do sangue

guio-me pelo fluxo dos teus lábios
pelo pulso dos teus olhos
e emerjo à tona instintiva das vagas com a memória
essa fome espumada no vício da tua língua

assim, cobre-me de cuspo ou espuma ou febre
e estende-me as cinzas em inflamáveis gestos
um braço, um ramo eternamente jovem até à ilha do fim
onde firme os dentes no nervo da terra descarnada

que é violenta a planície do amor
e embriagado o arrasto no respiradouro da paisagem

e eu, sou pulmonar no convés da fraga

se respirares devagarinho bem ao de leve
decifrarei no hálito o caminho,
entrarei mar adentro pela fenda nua,
a ferida aberta da largada

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remus

February 1, 2019 § Leave a comment

aminoapps.com

porque amamos demasiado o impossível
colocámo-nos céleres na boca do amor,
nus e do avesso para fora da carne
só para beijar na língua o precipício
trilhar o lábio no dente da escuridão
rapidamente desentender essa dor que aguçamos,
descemos mélicos pela escoriação
no fio frágil do sangue

amamos

e porque somos ininterruptos
essa dor masoquista insiste
persiste na aceleração das aves
no prazer delineado pela semente açucarada,
a avidez vertiginosa no bico da quimera

aves pré-históricas, flores carnívoras, feras desenfreadas
somos nós, rápidos

amamos

e porque amamos demasiado a loucura,
de sofrer trajados essa cegueira
guia para as funduras do peito
pelos atalhos das cidades encantadas,
brotamos pássaros azuis dos gestos ávidos
e cardumes fluorescentes da tremura do pânico,
e povoamos o céu com toda a felicidade desse medo

amamos

e assim na fome, pela foz diluída do esquecimento
o coração leitoso atravessa o oceano dentro da espera
sozinho na barca latejante do início
mais tenro que a rendição transparente do corpo
mais doce que a humidade gotejante do amor
mais crente que o amor imagina
que o amor leitoso pelas ondas da invisibilidade

viaja o impossível
ao encontro do amor

no desespero do amor

e imagina tudo possível
enquanto rema

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