autem II

March 27, 2019 § Leave a comment

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a felicidade tem uma luminescência tua que dança comigo
campos rodados de flores e árvores nas minhas carnes noturnas
lagos que perfuro embriagada das tuas mãos

todas as madrugadas cuido
todas as madrugadas são solares e deito-me na tua calma,
lavro o teu tempo no meu campo orbicular de flores

são as estações pelo júbilo transpirado e circular,
circunscritas,
de ti circunspecto como o sonho a infância e a tarde

e todos os lobos interiores sitiados neste lume ululam,
celebram para lá das fronteiras clareiras novas

e se me assustas
construo depressa uma casa e largo-lhe dentro um sol,
solto a pelagem da matilha e estremeço por dentro

porque sou quase gente quando mordo ou quando agonizo,
injurio-me e entristeço-me

sou simples, é isso

simples como tu
quando demoras o tempo exato de eu engolir o que sinto

o mesmo que levo a apaziguar qualquer padecimento

o amor

o amor trespassado de trilhos e feras tresmalhadas

caçamos ou fugimos?

todas as madrugadas festejo-te e danço-me
enquanto te interrogo sobre como vão os campos

e respondes-me sempre com o teu silêncio
que vão bem e que estão preenchidos de códigos e flores

e grito reconstruída essa felicidade num contorno de lágrima
o projétil perfurado no meu peito inaugurado de vítima

porque existires às vezes basta-me

e do telhado cresço uma janela espontânea que não vês
de onde me vejo escancarada numa ave que chega daí,
às vezes um inseto desgovernado na luz que me tange,
morre logo depois como a lonjura

um movimento que morre como eu morro

são as tuas mãos que me fecham me perdoam e salvam,
tremem o contentamento e ressuscitam-no do medo
enquanto descerro os lábios para beijar-te

acho que me conheces bem e ao meu paladar

somos velocíssimos nesta dança obscena
e a felicidade esta fera amestrada e amedrontada,
e as nossas línguas lavradas pelo mesmo lanho ferido

e evaporamos campos e lagos néones, etéreos
e voláteis que quase perecemos neles

nus inauguramos a espécie
e nada mais importa que esta embriaguez sobressaltada

desfalecer para reconstruir de novo

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opium

March 7, 2019 § Leave a comment

todas as flores se tornam incompreensíveis sem a tua presença

como barcos subitamente avistados repentinamente submersos

naufragam vazias no betão

quero dizer que é o amor
e que simultaneamente me angustio com a fragilidade das distâncias

e porque existem flores
tenho saudades e outras coisas indecifráveis como pedras, folhas
caules e raízes à deriva na solidão

papoilas
cujas pétalas são a tua língua que se repete
de encontro ao céu da minha boca
e a humidade uma chuva lenta num lugar de insanidade

assim tento entender a ordem do mundo
alternando a ordem das flores num campo aberto incendiado

qual é a primeira papoila? sendo tu sangue na planície inóspita?

e espero
e espero
e espero
enquanto o amor dá voltas às raízes escalando o caule da vida

depois desisto

de serem mudas as coisas dentro delas mesmas e das repostas
e os barcos terem já partido ou nunca sequer terem chegado

para que lado se move a flor na estanqueidade do sonho?
para que lado verte a seiva do nosso amor?
para que lado caminham as raízes do coração?

sendo tu primitivo caule, fonte da inaudível saudade

e tu papoila
amor à procura de terra nesta miragem de chão

Where Am I?

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