luxação

January 2, 2019 § 2 Comments

Desenho de Egon Schiele

Parto do amor mas regresso sempre
Demitida o sopro, o suor, a mágoa,
As pernas nuas pelo vestido
Como se na corrida me chovesse
E o vento nos joelhos me entornasse,
Despida fosse a cor da minha roupa
A roupa fosse a dor de estar vestida
E o sangue pela carne transbordasse
A velocidade louca de ser água
Na fonte do ardor, endoidecida

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elas

December 19, 2018 § Leave a comment

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as mulheres acordam e logo partem para as montanhas mais altas

ainda com os pés nos alicerces da casa
atravessam as planícies entre o quarto e a cozinha,
brotam nuas com a água dos desfiladeiros
nos gestos com que preparam o chá e recebem as manhãs

uma pele finíssima descola-se à medida que correm, atravessam a luz
despem-se no vento das divisões da casa
ultra e supranaturais

as mulheres acordam já montadas em altíssimas e velocíssimas éguas
com a nudez dos cascos pousada sobre o dorso do dia
e cavalgam enquanto estendem a roupa sobre as muralhas fugidas do passado
inclinadas sobre os abetos
com suas bocas esventradas sobre as sementes

as mulheres bruxuleantes
as mulheres mais trémulas
em pontas sobre o arame da vida atravessam as miragens
equilibram-se na vertigem do medo
tão delicadamente que aprumam o fio do horizonte com os desertos
de todas as coisas abandonadas

as mulheres com suas ancas musicais esculpem dunas para embalar os filhos

se alguém as reconhece na alucinação
é apenas porque repetem o futuro
estão na reconstrução do círculo dos relógios parados

e é já noite segura quando chegam nos comboios descarrilados
a pele enrugada da faina e um laço púrpura de sonho na pulsação

e é já noite profunda dentro de todas as horas
quando põem a mesa ainda com as pernas abertas na paisagem
os olhos pelo avesso do mundo

as mulheres

só mesmo antes de adormecerem amarradas à fome
recolhem às entranhas os bichos dos descampados
húmidos e mergulhados na sonolência do sexo
onde mamam luas enormes até nascer a manhã

e enquanto se alimentam e ausentam
as mulheres ainda estendem os braços ao comprido dos rios
salvam a leveza das poeiras e a flutuação das superfícies
escarafuncham as luras dos peixes com que humidificam o ventre
a carne alumiada da noite penetrante

as mulheres são rios e pássaros
nidificam aves contínuas no leito descontinuado das espécies

é delas o destino das longas e incompreensíveis distâncias
correr, resgatar novos e inesperados seres do pó da casa
reconstruir da louça o cristal das cidades inventadas
ordenhar dos próprios ossos o leite sobrenatural

lactea

December 13, 2018 § Leave a comment

nos dias desassossegados desato a profundidade,
desamarro os peixes dos pés para soltar as aves
e os barcos ascendem cardumes velocíssimos ao firmamento

nesse tempo,
se me morde uma pedra engulo uma árvore
e orbito endoidecida os ninhos do mar a levitar-me,
a pele pulmonar na prata dum espelho
até desaguarem pássaros nas estrelas,
romper um coágulo num navio

como é? rasgo agora o peito
já que o chão mordeu-me o pé?

o mar na maré da coxa é uma lua húmida,
sorve-me a água por dentro das marés,
jorra-me o sangue pelas narinas
descabelo-me de bichos

se respirar fortemente sangrarei um monte? uma planície? um cavalo?
planetas acoplarão no avesso destas ilhas?
serei habitável sem ardis e velas?

sinto sede,
uma anémona a latejar no arco da boca
fendida na fonte das papilas a crescer um lago,
a língua a tremer um cometa no vazio

será um ovo?

como é? engulo agora? desaguo a espécie agora?

arrasto o lábio via láctea acima?

pluma

December 5, 2018 § Leave a comment

Tenho pena da pena da praia fria
da ave desse céu que esfarrapou
agora que a sinto e sei que é minha
molesta-me esta asa que quebrou

Daí este seu céu, meu lar distante
daí este meu mar em desalinho
da praia tão vazia e a ave errante
da pena, meu presídio nesse dia

Se ao menos esta asa e não voar
se ao menos esta dor e não ter pena
ser ave desta areia e naufragar

Talvez a noite e a praia menos fria
a pena, a Lua à vela a marear
do céu o breu na asa em euforia

~~

November 30, 2018 § Leave a comment

tenho uma brisa num vaso
na minha casa em ruínas

é nessa brisa que voo
meu corpo pelo telhado
no bico dessas esquinas

e uma asa na boca
se o vento crescer deste lado

e a parede que escorre
de fendas pelo empedrado

é o meu andaço que chove
dum varandim recuado

e a minha língua que treme
as asas pela fachada

é essa ave que morre
em mim a dor transpirada

feng shui bovidae

November 20, 2018 § Leave a comment

sem horas para voltar
as vacas viajam pela noite fluorescente

da montanha, em direção ao mar
deslocam-se velocíssimas, plácidas
tão transcendentes e crédulas
com os dentes rilhados na metafísica do amor

porque as vacas, quando ascendem amorosamente ao dorso do dragão
atravessam com ele, e nele a pele
o coração descerrado do feng shui
que as transporta nas longíssimas viagens que fazem

porque as vacas místicas fazem longas distâncias
amando profundamente os trilhos
e todos os espaços abertos e fundamentais

como tal
enquanto o fazem, assim, magníficas
suspensas na insanidade que se distende
sonham vagamente que são felizes
desde o sangue à terra espiritual

planando altíssimo a imensidão instintiva
no sentido enigmático do fascínio e da carne
enquanto ruminam suspensas a vida
agarradas ao açúcar

porque as vacas espirituais são doces

tão doces quanto violentas e amargas
como todas as coisas belas
e inexplicavelmente puras

como o dragão que idolatram
trespassa-as e incendeia-as na noite
com seu inflamável fôlego

com ele rompem o ar desde o cume mais alto
ao colo do medo impulsionador
e projetam-se absortas contra o início
contra todas as torres subitamente erguidas e esventradas
com o seu cio muito puro e vertiginoso
inaugurando os corpos
ferindo a pele nas arestas do betão antigo
sangrando súbitas janelas na pulsação

e mugem
mugem altíssimo

sempre que o dragão ruge
elas mugem e abrem-se

e ele atravessa o espaço

corta-as ao meio da luz
e elas sangram
no alto espiráculo dos grandes arranha-céus
antes da fome as impelir sobre o abismo no sentido do mar
no sentido do amor, do medo, e da transgressão
que tremem desde o cerne animalesco
do vento e da água hiperfísica
contra todas as perplexidades

ele ruge

elas mugem

e o dragão inclina-se sobre elas
que abrem as bocas e sorvem o hálito penetrante
com o cio ultranatural das fêmeas contagiadas
descerrando pacientemente as pernas sob o dorso
inclinadas para trás
atirando o peito de encontro às constelações
inebriadas no álcool cristalino da alucinação

metafisicamente felizes desde as funduras do amor
com o arco das vértebras em chamas
sob o tórax escaldante do bicho
enquanto sorvem arqueadas o sal
a espuma incandescente
o suco imaturo dos grandes campos alagados e antigos

ruminam e exorcizam delicadamente os peixes
para perpetuar a correnteza da espécie
uma montanha inteira e sôfrega
enrolada no arco da língua
suspensa nas órbitas geminadas
para que não se esgote nunca o suco transcendente
da incompreensível humidade da terra e do amor

pensam tudo isto
e desfalecem os flancos de encontro ao sangue do poente
prostradas
e com o sonho nas mãos da noite a latejar
bebendo todas as horas num só trago de felicidade

com tempo
e sem tempo para voltar

as meninas no descarrilamento do amor

November 15, 2018 § Leave a comment

joshyeston.com

as meninas sangrentas
esbofetearam-se uma noite inteira por culpa do amor

até caras cósmicas gigantes vermelhas
no sangue incandescente do amor

as mãos esventradas, esferas espalmadas no súbito impacto
da estepe árida sedenta do amor

dobradas nas cervicais da culpa
tremeram
até golpearem as línguas na faca das palavras interditas

amor
amor
amor

acidentais na velocidade

primeiro no medo, enroladas e húmidas
depois nos gestos, bafejadas e tímidas

íntimas e íntimas e mudas e rápidas

as meninas sangrentas
acordaram antes do sono antes da estação do amor
por culpa da culpabilidade do amor
e tentaram recompor-se
à cabeça dorida, vergada sobre o ombro descarrilado do amor
um comboio estropiado na penumbra a gotejar óleo no linho

gemeram e bocejaram no unto a carne
o sangue
a dor

e depois
de mãos soltas, verteram o tédio no mijo

ohhhhh – demoradamente, muito longamente, elas
quentes na noite!

no mijo desnatado da noite
das cabeças quebradas
dos corações forasteiros
dos comboios descarrilados nas planícies profundas

nocturnas como o sangue
abafadas como o sangue
verdes como o nada

as meninas esvaziaram-se completamente

depois perfuraram o corpo deitadas sobre a linha da viagem
até atingirem a rendição sem retorno

as mãos para cima e para baixo no descarrilamento
as mãos para fora e para dentro do descarrilamento
as mãos para cima e para baixo pelo descarrilamento
as mãos completamente descarriladas – Oh!
desvairadas pelo arrasto estremunhado da paisagem nocturna

noite acima, noite dentro
como traças baças e vento

e deixaram-se assim gemer uma noite inteira entre as estações
a tentar recompor a dobra dolorosa do pescoço,
levitá-lo do vinco, alinhá-lo no farelo dos ossos

depois pentear as riças do cabelo antes da estação enervante do amor
antes se enervarem mesmo
antes do amor nervoso na estação
antes delas lá, na estação nervosa
elas e o amor
uníssono nervo estacionado

um pescoço um mastro, o cabelo uma vela na transpiração
lambida do amor alinhado

até lá, uma noite inteira inchada e infinita
um comboio latejante na tempestade

e nelas um pente pela dobra da coxa, um lanho pelo fundo do ventre
a acenar ainda a velocidade pretérita
imparável no espaço atravessado da noite descarrilada
das palavras ulceradas da terra por descobrir

e a íris rasgada no vidro da máquina despedaçada
desfocada sobre a paisagem
a língua golpeada na trepidação do dente nocturno
do dente feio no recorte da vontade por concluir
amarelo linho, amarelo lua, amarelo bexiga, amarelo larva

amarelo tempo

as meninas sangrentas ergueram-se ácidas e amarelas e esfarrapadas
e arrastaram-se remelosas e ajoelhadas para o descarrilamento

trôpegas
foram lacrimejar húmidas na linha
desfalecer o rosto dormente e comichoso no ferro

Oh! É frio o amor? – entreolharam-se e morderam-se

os pescoços inclinados no vértice do ombro da viagem
a escutar de orelha o leite da coxa a trepidar pela linha
a travessia da noite a escorrer pela veia do carril

vem aí! deitem-se!
às pernas pelos tornozelos aguilhoados do amor

e
noite dentro, noite fora, dor por dentro, dor na hora
pensamento, tempo-hora, sangue dentro, leite fora
no pensamento impaciente do amor

no ferro frio da linha quebrada do amor
pelos círculos distendidos do amor

no amarelo mijo do amor

do comboio descarrilado na obstrução coagulada do amor

sangue vivo do amor
sem estação