montis

September 13, 2018 § Leave a comment

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a pedra batia o sino no alto da luz da cabeça da mulher
no tempo em que ela embalava as palavras
cobria-se com a humidade da tarde antes da noite fluorescente
com as mãos cruzadas no peito como árvores antigas
ou lagos adormecidos ou elfos ou faunos ou fadas
com o rosto voltado para o interior da magia das flores musicais
que ele semeava longe, longamente, docemente para ela
pelas margens descerradas da paciência

e a pedra que batia tão alto e tão forte no cume da escuridão
era cada vez mais elevada e inaudível
e o bulício feria e rasgava a noite completa
sangrava constelações pelas horas místicas da espera

e a pedra acontecia desde o homem da montanha
à mulher que corria livre no sentido do rasgo inexplicável
para dentro do futuro ao mesmo tempo que resvalava na luz
torcia os pés nas margens dos poços intermitentes

oh! cairei cairemos – gritava de dentro do eco da cabeça
com a língua gretada no sentido das estações
estendida para a insustentável sede vespertina

oh! essa dor esta dor na saliva do distanciamento
e lambia e lambia as feridas pelas horas da convalescença
para amolecer a carne e humedecer a fome na aceleração

poderei cair cairemos – sabia e dizia certas vezes sorridente
com os braços descerrados em asas ou em peixes ou em línguas
ou em vento pelo dorso luzidio de um potro tresmalhado
ao mesmo tempo que tentava agarrá-lo pelos flancos
puxá-lo para si deitar-se nele ou com ele nos descampados
onde suaria e inspiraria e rasparia os próprios cascos
nos lábios suturados e fragmentados da terra alienígena

poderemos quem sabe quem diz pertencer ao mesmo coração das pedras
bater com elas assim duras dentro da gente desemparedada
abrir estas fontes evaporadas de espuma sobrenatural

e enquanto pensava ou dizia ou fazia tudo isto, temia
e gritava tão terrificamente que brotavam fontes na montanha
do homem entre as pedras fluorescentes a plantar corações
que ficavam a brilhar com as estrelas até não existir mais espaço
entre elas os dias e as palavras no pensamento e no amor
como beijos geminados ou desfalecimentos da quimera

e crescia e crescia tudo abrindo e fechando tudo
abrindo-se e fechando-se como um pulmão magoado
um coração estelar abrindo e fechando as válvulas feridas da noite
com os olhos enfraquecidos das horas solares
estalando tudo nos ossos vibratórios da transpiração do amor

e a pedra batia tão forte tão fortemente e tão dura
que por vezes era tão mole e tão líquida que sangrava areia do peito
na resiliência do amor que nela corria e em torno de si mesma
a rodar a rodar os desertos nos espelhos das miragens

a pedra que trespassava o tempo para ecoar nas paragens distantes
dentro de todos os relógios para cobrir todos os desacertos
das caçadas violentas de encontro à felicidade impossível

vamos cair cairemos falava ela ou cantava ou chorava tanto faz
que é tudo a mesma coisa nesta vida o resto inventamos nós
– enquanto acelerava abria a boca no arco duma clave
para que ele acertasse o compasso da pauta nua do encantamento
entrasse despido pela aragem sincera da respiração
pelos trilhos acidentados do deslumbramento

que a pedra batia batia-lhes tão alto e tão forte nos sentimentos
dele tão longe que o medo um lanho uma porta entreaberta
dele tão perto e dentro de todas as pedras da casa incendiada
dela quase tão antiga quanto uma ruína desde as raízes
uma nuvem ou um lago que levita no vapor que embebe os telhados
pelo ciclo da água transcendental da espécie

tudo isto dele para que ela entrasse desde o dia acidental
por debaixo do ruído da cidade nua e escalasse as paredes
a mulher que procurava e se despia para entender-se
desde os pés do pensamento ao batente do coração

a mulher e o homem e a pedra
uma montanha altíssima que escalavam juntos
tão elevados tão profundamente até ao infinito
para esculpir em uníssono
todas as formas graníticas do genuíno amor

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trago flores

August 24, 2018 § Leave a comment

abre
sou eu
trago flores

a solidão tem andado a perseguir-me
e os bichos, cá fora
estão cada vez mais ferozes das horas mortas que lhes tem dado a comer

alguns têm asas nas patas e dão dentadas no céu
sobem o ar pela espinha da fé e chove sangue nos rios

outros têm facas nos ossos e lapidam os corpos
até nenhum inteiro sobre a vida de dentro para fora

a solidão sempre à espreita a desmembrar-me pelas esquinas
olha – já me falta uma perna

o dia chegará em que permanecerei queda
esquecerei também o caminho desta porta
uma pedra sobre as coisas

será no fim das estações quando a solidão desligar o sol
e o avesso do dia uma grande escuridão

abre antes que anoiteça
trago flores
o passado não quis vir acho que são amantes ele e a solidão

vi-os de mãos dadas na floresta
vi-os amantizados de ideias a fornicar arrependimentos
e gemiam, oh como gemiam, suavam inteiras florestas tropicais
um masoquismo que alaga, esparge-se
cria tumores que não curam

a solidão apareceu esgadelhada e levou-me esta unha
deste dedo aqui da campainha – olha, incompleto que já não chama
doí-me desde a vontade à ideia que me trouxe
doí-me tudo a partir deste miserável dedo
o corpo a latejar um relógio onde não estás

olha as flores como murcham
uma já perdeu a cabeça de bater neste pulso
que esta gota de sangue a caminho da terra tem o aroma do fim

sei que tens jarras no centro da casa para alegrar os medos
ouço-os rir agora ou será que choram?

nunca sei de que lado ri a dor de que lado mói o prazer
de que lado ama a morte ou morre o amor
de que olhos em que olhos nos reconhecemos

mas vejo a ponta de um jardim a escorregar do teu telhado
como continuas zeloso e doméstico

no entanto esqueceste-te de limpar os vidros
tão foscos que não vejo para dentro para trás desse interior

no entanto sei que estás que dormes, é com a vida?

essa também tem falhado muito dorme demais ou não dorme nada
tem descorado as cores e está tudo pálido e poluído

trago um saco de lixo que pesa muito
dobra-me a fé pelo arco dos ossos
sou uma ponte por onde não passo
vergo-me sob mim

trago um saco de lixo que pesa muito
que vem a transbordar de medos e exterminações

sei que tens um poço aí dentro para acabar com tudo isto
atiro viro costas e fim
acabou é passado e uma escuridão sem fundo

abre que pesa
abre que doí-me o corpo desde a ponta deste dedo
desde a falta da garra para esventrar o mundo

envelhecem-me as raízes sem retorno por isso abre
que aqui deste lado está tudo entornado
e a solidão vive em contínuos desaterros

em pouco tempo veremos o vazio de um lado ao outro do mundo
o olho despejado do amor

abre abre depressa enquanto ainda o vejo
enquanto ainda o amo
tenho medo destes alçapões tão transparentes que a solidão constrói
destrói ao redor da tua casa

como anda com as horas a tecê-los ou com a vida
ou com a morte

trago flores oh como são tão lindas
se demorares morrerão e nenhuma cor
baterei com o rosto na terra e nenhuma dor
romperei os joelhos nos ossos e sangue transparente
de peito na pedra arrastar-me-ei a chamar o mundo e não virá

está por acaso contigo dessa janela a ver-me assim prostrada?

olha olha a minha boca como beija
olha a minha língua como pende a sede
amo-te quero-te antes que me dilua em sangue
um lago vermelho um mar rubro interior um coágulo

doí-me esta facada nas costas este rasgo enorme
que não sara o fundo

sei que tens jeito para curar lugares amaciares insânias

os teus dedos finos e trémulos curativos pela superfície
torcidos pela espinha adentro

abre agora que faz frio
enquanto a solidão anda em fornicações

fornicaremos também
deitamo-nos no quarto do fundo depois da jarra
o mais escuro para que não nos vejam as corolas
discretos nesta relação

cuidarei do jardim e limparei os vidros
para veremos melhor a vida como fode cá fora

assim terás inspiração para matar mais horas
ainda que sucumba tudo

olha a minha boca lê o meu aviso
o meu silêncio nos lábios como fede

a -mo -te

abre
mostra-me o peito

aceita as flores

nebula

August 22, 2018 § 2 Comments


há um olho no jardim do nevoeiro que vê tudo

vê a linha com que fio o pensamento
vê suas razões costuradas na pedra
desta minha espécie de sono ou caminho
ou sonho intermitente de lã e areia

há esse olho que fia poeiras de um coração dormente
de pequenas pedras com pulsação interior

basta-lhe aceder à cegueira pela porta dos ovos
acender o fundo das cinzas nas franjas do amor
que logo se embriagam as pedras desde as raízes
eclodem veias das fontes de neblina
e eu acedo

e o olho explica-se:
o jardim é invisível e levita
porque é do interior que se harmoniza a luz
germinam e ascendem as flores incandescentes
com suas corolas de indissolúveis cores

e eu acredito
e pestanejo as pedras no jardim do nevoeiro
com um olho cambaleante pela linha cega
pela pulsação ajardinada e líquida do amor

laica

July 26, 2018 § Leave a comment

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sem diferença entre as coisas
ver e amar é sempre uma questão de proximidade
superfície e profundidade

assim
importa-me mais a velocidade que inexistentes distâncias
e resilientes matérias

ser amorosamente instintiva e itinerante

basta

astrolábio II

June 7, 2018 § Leave a comment

nos dias fastidiosos zarpo de mim os navios
trepo o mastro e dispo da amarra o vestido

que me importa o leme se as velas?
se mergulho nua descabelada as marés

que me interessa o cosmolábio se o peito?
farol resvalado no estrabismo da rota

abalo meu casco na náusea do berço
nos dias morosos pela minha pressa
porque o mar é distante e fundo na minha ilha
salgado e doce e carnívoro no meu sangue

porque parto sem saber se aporto ou se adormeço
se regresso incólume as vértebras na quilha

rosas de maio

May 1, 2018 § 1 Comment

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as rosas de maio
florescem nas torres mais altas
dos homens mais altos, das sementes mais fundas

por isso,
os homens galopavam rápido,
montavam bestas na perseguição da terra,
desbravavam de cascos a trajetória,
as veias na pulsação da humanidade

e chegavam com bestas nos braços,
os ossos quebrados de cestos de flores

eram tais homens que edificavam o mundo,
martelavam ferozes o futuro na leveza das pétalas,
os caules que sustentavam os saltos,
impulsionavam as subidas

eram eles os plantadores dos jardins mais altos e inalcançáveis
exatamente os mesmos plantadores de hoje

e as torres, essas, fixos planaltos,
balançavam os corações das corolas,
crianças plantadas num vento maternal, embaladas,
o peito azul leitoso na liberdade

porque partiam contínuos, irrefletidos, instintivos e puros

partiam permanentemente ainda que não voltassem

velocíssimos, trabalhavam excelsos essa lonjura
a proximidade da alma à essência da terra

partiam vagos mas seguros, montados no coração das vagas

e galgavam as próprias torres com a carne ferida
aberta de lava, até ao último perfume inocente,
a última gota de sede

e tudo era sanguinário, preciso e belo

a formusura brotada do sangue e da luta

e tudo era corações de fogo a proteger

e tudo por um futuro isento e assegurado

e tudo eram eles
e eles dentro de tudo eram tudo

as rosas de maio nas torres mais altas dos homens mais homens

era assim

e as crianças cresciam das bermas e aproximavam-se

não tinham medo das torres nem dos homens de lume

escalavam a pedra e a carne como botões verdes,
e equilibravam-se felizes,
bailarinas sobre as vigias levitadas,
o corpo imaculado entre as roseiras,
o peito ao longo dos parapeitos de luz

assim penso que era

como penso agora as mesmas as torres, ainda,
só que mais baixas dos homens mindinhos,
das sementes mais deslavadas e desvalidas

os homens
que ainda galgam canteiros espelhados de serranias

ainda os mesmos,
dos mesmos fantasmas,
ainda deles as mesmas torres,
delas o corpo da poeira e da folia

e as bestas saudosas, as mesmas ainda,
velocíssimas, recuadas, retraídas,
a arriscar o retorno por atalhos de melaço

um dia vão encontrar-se lá trás com este futuro

e as rosas ainda delas, fotográficas e sublimes
a ajardinar o passado gigante nos retratos

e as crianças, bailarinas ainda,
mas tristes entre as valas,
as cortinas das giestas,
intermitentes na prata do cascalho

têm os olhos postos nos cascos das bestas
e não os tiram, que elas não mexem

se pudesse regá-las a elas e às rosas sem ser de sal,
pela única, derradeira esperança do derradeiro campanário

a gota ainda latejante do inerte, ainda o mesmo plantador

talvez ainda uma semente que restasse,
uma roseira por brotar na pedra de qualquer torre

remus

April 30, 2018 § Leave a comment

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porque amamos demasiado o impossível
colocámo-nos céleres na boca do amor,
nus e do avesso para fora da carne
só para beijar na língua o precipício
trilhar o lábio no dente da escuridão
rapidamente desentender essa dor que aguçamos,
descemos mélicos pela escoriação
no fio frágil do sangue

amamos

e porque somos ininterruptos
essa dor masoquista insiste
persiste na aceleração das aves
no prazer delineado pela semente açucarada,
a avidez vertiginosa no bico da quimera

aves pré-históricas, flores carnívoras, feras desenfreadas
somos nós, rápidos

amamos

e porque amamos demasiado a loucura,
de sofrer trajados essa cegueira
guia para as funduras do peito
pelos atalhos das cidades encantadas,
brotamos pássaros azuis dos gestos ávidos
e cardumes fluorescentes da tremura do pânico,
e povoamos o céu com toda a felicidade desse medo

amamos

e assim na fome, pela foz diluída do esquecimento
o coração leitoso atravessa o oceano dentro da espera
sozinho na barca latejante do início
mais tenro que a rendição transparente do corpo
mais doce que a humidade gotejante do amor
mais crente que o amor imagina
que o amor leitoso pelas ondas da invisibilidade

viaja o impossível
ao encontro do amor

no desespero do amor

e imagina tudo possível
enquanto rema