humo

May 26, 2015 § Leave a comment

sacro
o amor, nos espectros da noite

podem passar anos sobre esse lugar,
árvores, depois das estações para lá do céu
continuamente pássaros, cerúleos
continuamente o avesso
do rio, um leito de sangue

deito-me descoberta de lua e uma janela

pode desabar um astro e perfurar-me a carne,
um vidro pelo rendilhado das veias, dentro
cardumes brotados e abelhas da pedra

o candeeiro arde cortinas nos olhos

descerro a boca num vaso para esse amor

os tapetes, pele fustigada e vendas
desobedecem aos sentidos, no linho
brotam cascatas de joalharia

vou deitar-me, as pernas vazias de mãos

facas morrem os cabos nos estendais

podem passar muitos gestos, tempo

triturarei a fruta, vendada no fogo,
no barro desse amor

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ainda

September 15, 2013 § Leave a comment

Sei de ti, criança
De mim, contigo nos meus braços
O teu sorriso franco nos meus lábios
O meu coração nos teus abraços

Ainda sei
Ainda encontro
Ainda entendo, posso
A tua mão repetida sobre a minha
No teu cabelo as fitas dos meus laços

Vives comigo, sei, és
Sabes, ainda
Sempre às escondidas no meu quarto
Tu, em cada espelho
Na minha boca o teu sorriso farto
A candura da tua voz entre o meu sopro

És comigo, ainda
Leveza e alvura, encanto
Beijos e enleios, alma e pele
Fulgor, flores, fadas e fé
E tanto
Ainda

Sonhas, sei
Sinto-o contigo
Alva, colorida, montanha, mar e primavera
Ao colo dentro das minhas sombras
Pelas minhas florestas duplicadas

Ainda corres sozinha
Ainda o fazes comigo
Recalcas o carreiro que me esquece
Tu, para mim que alcanço
Os teus braços estendidos, rectos
O teu olhar ávido e sereno
As minhas mãos nas tuas,
No teu corpo delicado, tempo
Ergo-te, seguro-te e aperto,
Ainda
Respiras
Dentro do meu infinito

nuvens

February 10, 2013 § Leave a comment

Vejo cavalos a galopar no céu
Desalmadamente avançam impelidos pelo vento
Um é mais cinzento que o outro
Um é mais claro e mais lento
Outro que se lhes junta é escuro como breu

Consigo não perde-los de vista, se me esforço e tento
Se me esqueço do que se intromete neste cavalgar etéreo
Se busco mais longe que o olhar e me concentro

São cavalos bravos, depreendo
Livres, estou certa que são
Fogem assustados do escuro que os persegue
Temem perder as formas nas bocas da escuridão
Vai na frente um branco solto e leve

Ora avançam, ora recuam de repente
Depende do jeito que o olhar pressente
Se a vontade almeja e a alma pode
Se contorno as curvas ao redor
Se fixo, se espero simplesmente

O que é escuro como pez, levanta de uma vez as patas no ar, brioso
Furioso relincha num silêncio assustador e tenebroso
Arrebata os companheiros de cavalgada e desfá-los em espuma
Depois, como uma duna ao sopro natural, abandona-se
Dilui-se aos poucos, triste como o sal do meu olhar a desistir na trovoada
E chove
Chove e retumba fortemente

Que pena, penso, tanta vontade transformada em nada
Tanta água diluída contra a minha cena denodada
Tanta história levada num só momento
Tanto tempo disperso de cabeça airada
Tanta bravura apartada num esparso movimento

Chove
Azul a um canto que se move
Uma nesga de crina de cavalo branco, ainda varre o céu com desencanto
Esboça o infinito para lá dos meus ensaios
Do meu cinzel despedaçado pelos cascos
Agora, meus cavalos são baios, entre raios de Sol, perdidos
No deserto azul do meu embuste, absorvidos, já não os vejo

Deslindo apenas coxins de algodão suspensos de um lustre santo
Do quadro que fiz e desfiz só resta um pranto

Que pena, penso, ter-se varrido tudo
Não ter sequer ficado uma almofada de espuma
Uma duna onde repousar meu pensamento escuso
Com que moldar uma ovelha tresmalhada
Talvez um campo florido onde ponha tudo
Uma montanha de neve onde impera o frio
Um rio azul rodeado de algodão
Um rosto, de um corpo a mão
Um desejo a rodear o sonho com um fio

Where Am I?

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