lignum

October 9, 2019 § 3 Comments


escreve uma árvore
escreve-me uma árvore e desenha-me um poema
escreve-me uma árvore, folhas, letras manuscritos de palavras
uma sublimação esverdeada, livre e espontânea
escreve-me umas asas
uma montanha que voa
uma montanha elevada e uma árvore tamanha
frondosa alta e recortada
uma copa farta à deriva num vendaval de letras
um pincel à toa de palavras
deslavado em calhetas

desenha-me essa árvore desenha-me um poema
uma pauta musical de chuva
aves abrigadas no arvoredo
ninhos
versos
telhados espelhados na brisa
apanha-os e descansa-os
coloca-os na segurança do refúgio assinalado
no teu mapa escorrido
nessa árvore
no meu universo plantado na ramagem
escreve escreve
escreve-me um livro
rematado
complexo
escreve-me um trilho
uma estrada
sentida e gigante que entenda
verso a verso
folha a folha
água a água
um aguaceiro de verde e sombra matizado
escreve-me uma árvore
descreve-a alteada
cavada em mim
submersa na minha tempestade de abetos e silêncio

desenha-me
isso
devagar
devagar desenha-me
desenha-me
escreve-me assim verde e alta e molhada
o caminho
o firmamento pintalgado
estrelas e sol
vazio e luar
a árvore nua
a árvore recortada e acordada na noite
delineada e vigilante
e a tua mão em desatino na escuridão
escreve-me uma floresta de livros e de sossego
uma fuga repentina das prateleiras e dos medos
das frases encasteladas
a árvore
tempestade de folhas e neblina
tu
um tapete de terra molhada e mansidão e nervos
cores e purpurina
o mapa das estradas
estreitos e nadas
escreve-me essa árvore
escreve-a e desenha-me um poema
a árvore que eu quero
que adivinho pura
seiva
a árvore pungente e inadiável
a árvore altíssima
verde arreigada no teu nome
escreve-me um poema
um ninho
colmatado
perfeito arborizado
a tua ausência em desalinho entrelaçada nas raízes

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horis

October 4, 2019 § Leave a comment

as minhas horas
são feitas de espaço e de paisagem

não há medida nas minhas horas
não há aragem

os ponteiros são passos

as anotações esquissos

as minhas horas são letras
são estrupícios

não há espaço nas minhas horas
não há medida

nas minhas horas não há chegada não há partida

sei de cor o tempo do meu espaço
sei de cor a hora

sei de cor o tempo de cada ausência
se chegar demora

minhas horas sequer são minhas
sequer são tuas

as minhas horas são apenas letras
são apenas vento

não há mistério nas minhas horas
não há loucura

as minhas horas sequer existem
sequer as tento

as minhas horas são almas livres
são argumento

não há urgência nas minhas horas

só conjuntura

observatorio

September 12, 2019 § Leave a comment

plantar barcos de flores em agras de viagem
apenas para singrar nos olhos as marés

içar corolas à boca solar do desconhecido

depois talvez numa nuvem prenhe
na lambedura espumosa de um mastro
entenda deus um caule afiado de raiz temerosa

e apenas de sentir-se assim desconsiderado
chova enfartado qualquer estrela sobre o convés
retempere o campo do peito semeando-o de luz

e o vento de feição restaure de verde a maresia
a fé nas mãos sinistradas do estaleiro do amor

um

August 30, 2019 § Leave a comment


bem

vou ali

colher uma flor

olhar um pássaro
observar um barco
apanhar uma pedra
escutar um rio

tudo isto eu farei indo simplesmente ali
como quem fica a imaginar apenas que vai

e entretanto passa um bando
que não vi

sobre um rio que não escutei

estava no meio do jardim que não vi
a procurar entre as pedras que não sei

bem

como não fui
regressei sem a água e sem a flor
sem o pássaro que levou a pedra que não apanhei

corri mas estava sozinha e não me mexi

que agora existem todos sem mim
que já não vou
desisti

floração

August 22, 2019 § Leave a comment

enquando te falo deste jardim e das suas espécies
divagas sobre as flores antigas dos campos vedados protegidos dos vendavais

nada posso contra a antiguidade ou contra essas raízes que se perpetuam frágeis
e nada tenho contra os relógios estagnados das paredes oblíquas

seguro o meu vento com o peito aberto arrasto das pedras evaporadas
enquanto agarro estas nuvens desde as ruínas com que regarei a suavidade
das líquidas florações

e enquanto tudo se alaga por dentro e por fora dos gestos
em círculos de miragens doces a pique do céu
os botões tenros que guardo aqui sob a tua luz descendente
que ainda não sabem o nome verdadeiro das florescências
esbatem-se no campo aberto das bocas descerradas e caramelizam-se solares
enquanto chove
devagar
a par dos rios vagarosos que se deixam levar por dentro dos olhos
ao mar da rebentação

porém
tenho sérias dúvidas como sérios contentamentos
sobre estas e aquelas irreflectidas plantações
de que são feitas
o que retiram da pele remexida desta terra
de que forma a tua sombra se curva sobre as corolas
encosta o peito às vértebras da felicidade
docemente ou condoído
frívolo ou amedrontado

de que jeito se encaracolam os corações no frio da solidão
as folhas sob o sol terno do teu olhar desgarrado
a musica do teu riso à sombra da hesitação

até onde se distendem as raízes desde os abetos dos teus dedos
a contorcer a dor por dentro do inatingível

qual o verdadeiro sabor que goteja da tua sede lenta sobre esta aridez partilhada

quando te falo de amor humedeço-me por dentro
enquanto falas do tempo com sementes dispersas e aquáticas no olhar que
enrolo na boca desde o teu sexo
para desbravar a pele entre as deslocações nestas minhas nossas
furtivas semeaduras de irrepetíveis estações

e sei tudo isto a remo dos ponteiros dos teus dedos

que tudo leva o seu rumo e que nada nos pertence mas que tudo de ti me completa
enquanto sais para regar os campos antigos nas horas concebidas
comigo deste lado de mão dada aos trémulos rebentos da primavera

se me perguntam se demoras digo-lhes que não, que sim, talvez que sim
que sim mas que falta quase sempre uma estação por dentro da saudade
que é uma sede indecisa numa brisa que se dilata por dentro do verão
e se sacia lenta da espera condescendente e húmida

que ao virar da esquina o futuro vem de rio cansado ao colo
a arrastar os pés pela margem mais embebida do mar
de olhos fixos no fim

digo-lhes isto para que chorem
ou me chorem
ou talvez ainda para escutar-me nervosamente
que se acertarem o teu nome por dentro da água ensanguentada do coração
terão um dia um lugar assinalado no mapa da floração

ou não

oh

August 15, 2019 § 2 Comments


tão triste
colher flores no campo aberto inventado das borboletas misteriosas


onde as espécies tão raras desaguam e me desconhecem
desatadas da sede que tento desprovida de nome

voam
imagino que voam
decerto voam os meus dedos nas grades
voam ou nadam tanto faz furam
aperto-os entranço-os e furam e rodam e partem

e que pena e que triste ter asas quebradas e partir
terem asas e eu ter voado com elas daqui estes meus dedos pelas flores desarticuladas

ter conspurcado tudo os ossos a forma a cor o voo a dor
este arame só de mexer-me fundo só de pousar desvirtuada o espaço
tão somente de pensá-lo límpido
querê-lo voar-me por dentro transparente pelo quadriculado

assim
voar-me daqui nesse sentido trespassar-me
e moer-me uma espécie de intraduzível movimentação intransponível grade

não deveria sequer ter lembrado largado as mãos de apenas ter querido soltar-me uma escama ou uma asa ou uma brisa
sequer ter sonhado ou sabido sonhar
sequer saber agora ainda tão apartada e mais cega tão lenta tão sonolenta tão nada

nada mesmo

e agora deste vazio nem pensamento nem jeito nem fora nem dentro nem perto
nem fora nem dentro nem planura um deserto
e eu decerto perdida daqui ou achada dali que nem sei nem importa
à porta decerto desgarrada

que eu nem nelas livres nem a liberdade delas ou minha
nelas puras nelas pássaros da ideia ainda linda
ainda agora nada e tudo lindo
numa teia de flores tão bela e complexa

e logo flores tão tensas
presas tão duras tão próximas que logo tão longe e tão líquidas
daqui das mãos perfuradas no olhar ali além num rio
delas molhadas e escorregadias
tão rápidas e fugidias como o medo

ali além nem distância nem ar nem mãos nem asas puras
medo de perdê-las e um fiozinho simplesmente quebrado cedo
que nem ar nem água pura nem vê-las nem tê-las nem regá-las
ou elas a mim

enfim

nada

mesmo nada
que esta triste sede mais triste de tentar chegar e perder-me
às flores com os dedos gradeados

que sem flores só mãos e eu
a espreitar e nada mais
que nada mais existe

mea

July 18, 2019 § 3 Comments

espero-te sempre

meu amor

como um verão inseguro
a par da estação

a tocar-me tão ao de leve

tu

meu amor

e o presente
sempre um tempo que não chegou

assim anoiteço

assim me embalo nesta tremura

no desfasamento destas nossas proximidades

meu amor

ou então
no gesto de uma pedra ao mar por atirar

quero dizer com isto que me faltas

que mergulho sôfrega meu amor

de dentro do gesto contra o vazio
nesta granítica solidão sem balanço

enquanto o sol brilha o teu rosto inatingível
e pareces-me verdadeiramente verão

e o mar um quase inaudível rumor
da tua voz submersa

assim sou eu
e estou
a esperar o teu gesto preso à contemplação tangente

meu amor
meu amor

Where Am I?

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